“Em 2008, Sidnei Caria ganhou os prêmios APCA de melhor ator e Femsa de melhor direção por As Aventuras de Bambolina, peça sem palavras baseada em livro do autor italiano, radicado no Brasil, Michele Iacocca. A parceria feliz prossegue agora com Rabisco – Um Cachorro Perfeito, em cartaz na Sala B do Teatro Alfa – mais uma incursão de Caria pelo universo eloquente dos livros sem texto de Iacocca (Ática).

Rabisco é um espetáculo inovador de linguagem, com uso de múltiplos recursos cênicos e audiovisuais. Não, não fuja, se você sente arrepios cada vez que ouve falar de uma peça de teatro cheia de invencionices tecnológicas. Rabisco sabe tirar o melhor proveito da tecnologia, sem ser estrambótico, sem deixar de ser teatro e de emocionar.

Inspirando-se nos trabalhos do grupo holandês Hotel Modern, Caria traz para nós a projeção de videocenários e os chamados puppet toys. No palco, uma maquete detalhada de uma cidade é filmada o tempo todo, com objetos que se movem, personagens andando pelas ruas, tudo manipulado pelos atores, enquanto outros percorrem tudo com minicâmeras de vídeo e, assim, o resultado é projetado num telão. Crianças e adultos ficam vidrados nesta ideia de “confecção ao vivo de um filme-teatro”.

Toda essa aparente parafernália poderia roubar a atenção do público e seu interesse pela história. Mas aí é que entra a competência do grupo e, sobretudo da direção e concepção de Caria. A magia teatral flui com talento e ritmo, graças à força poética da história escolhida e à criatividade na mescla de linguagens: há momentos de teatro-filmado, outros de filme-teatro (!), outros só de teatro, outros só da mais fascinante animação de objetos, de teatro de sombras, de teatro físico, de interação com as crianças da plateia e, claro, outros que misturam tudo isso. É uma experiência muito dinâmica para o público. Pais não conseguem ficar sem comentar detalhes com os filhos durante o espetáculo, e vice-versa, o que, neste caso, é perfeitamente saudável. É um “outro” espetáculo, inovador, multilinguagem? Pois que seja “outra” também a plateia e rompa as barreiras do conceito tradicional de espectador.

Controle remoto. É uma verdadeira celebração criativa para crianças e adultos. Quando o cachorro Rabisco salta do papel e começa a circular pelo palco, pronto!, a magia está definitivamente instaurada. Os olhos das crianças ficam vidrados no truque teatral. O “desenho” do cachorro consegue se mexer graças a um simples carrinho de controle remoto que lhe serve de base.

É importante registrar: já que é peça sem palavras e feita com registros audiovisuais criados ao vivo, nada disso funcionaria se não fosse a trilha sonora. A música caminha de mãos dadas com o espetáculo. Os atores-manipuladores agem de acordo com o que pede a ótima trilha, assinada por Daniel Maia e Dr. Morris. Crianças de até 80 anos vão vibrar com o inusitado Rabisco, sobretudo as que adoram entender os mecanismos das coisas e que se ligam em laboratórios da escola ou em aulas práticas de “como fazer”.

Do Estadão

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